Minha primeira entrevista em inglês durou dezoito minutos. Estava marcada pra trinta. A recrutadora perguntou "can you walk me through your current role?" e eu entendi cada palavra. Sabia a resposta em português. Em inglês, saiu um terço dela, com brancos enormes no meio das frases. Ela foi educada, encerrou mais cedo e nunca mais respondeu meus e-mails.
O problema não era vocabulário técnico. Eu lia docs em inglês todo dia. O problema é que eu nunca tinha medido meu inglês de verdade. Eu achava que "me virava". Achar não é medir.
A escala CEFR sem academicismo
CEFR é o Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas, com níveis de A1 a C2. Ele descreve habilidades de comunicação; não define quem passa numa entrevista. Resumindo a escala oficial do Conselho da Europa:
- A1 e A2: comunicação básica, de expressões familiares a trocas simples sobre situações rotineiras.
- B1: você entende os pontos principais de assuntos familiares, relata experiências e explica brevemente opiniões e planos.
- B2: você acompanha ideias complexas, inclusive discussões técnicas da sua área, interage com mais fluência e explica vantagens e desvantagens de opções.
- C1 e C2: níveis mais avançados de flexibilidade e precisão; C2 exige compreensão e expressão especialmente amplas. Não significam saber qualquer assunto.
Pra mim, avançar de B1 pra B2 ajudou principalmente na espontaneidade. Não era só aprender palavras: era conseguir responder perguntas que eu não tinha ensaiado. O nível também pode variar entre leitura, escrita, compreensão e fala.
B2 como referência de preparo
No meu caso, o dia a dia ficou mais tranquilo que a entrevista: eu conhecia o contexto e conseguia revisar boa parte das mensagens. Isso varia por função e time; reuniões, incidentes e conversas com clientes também podem exigir bastante. Mostrei minha rotina em reuniões em inglês.
Entrevista acrescenta pressão: é ao vivo, com um desconhecido, e os follow-ups podem sair do script. Eu travava no "why?", mesmo quando tinha ensaiado a resposta inicial. Isso descreve minha dificuldade; não significa que toda pessoa com B1 vá reprovar.
Por isso uso B2 como referência de preparo, sem tratar como requisito universal ou garantia. Algumas vagas pedem mais, outras aceitam menos. Além do resultado do teste, pratique uma conversa sobre trabalho com perguntas inesperadas. Clareza conta mais que imitar sotaque nativo, como contei em sotaque importa em entrevista?.
Como medir seu nível de graça
Não confie na sensação. A minha mentia nos dois sentidos: superestimava minha fala e subestimava meu listening.
O EF SET oferece testes online gratuitos com resultado alinhado ao CEFR: a versão de 50 minutos mede leitura e listening; a de 90 minutos inclui também escrita e fala. Confira a versão escolhida. Duas ressalvas:
- A versão de 50 minutos não mede fala. Um resultado B2 nela não comprova speaking B2.
- Grave dois minutos respondendo "tell me about yourself" e faça uma conversa com follow-ups. Use isso para identificar dificuldades; desconforto com a própria voz não é medida de proficiência.
Faça o teste antes de aplicar, não depois de queimar processo. Eu fiz na ordem errada e paguei em entrevistas desperdiçadas.
Se o resultado der B1
Use o resultado para escolher o treino, junto com os requisitos da vaga e sua comunicação ao vivo. Se ainda não consegue explicar seu trabalho, priorize essa prática e simulações. Uma nota isolada não precisa suspender toda candidatura, e a possibilidade de reaplicar depende da empresa.
O que fazer nesse meio-tempo:
- Migre todo o seu consumo técnico pra inglês: docs, vídeo, podcast. Legenda em inglês, nunca em português.
- Fale sozinho todos os dias, em voz alta. Gravar e escutar é desconfortável e foi o exercício com melhor retorno que encontrei.
- Trate como projeto com rotina, não como hobby. O passo a passo que usei está em como melhorar inglês técnico.
Quanto tempo leva de B1 a B2? Não vou te dar prazo, porque seria chute. Depende do ponto de partida e da constância. Desconfie de quem promete fluência em X semanas.
O que posso te dar são os meus números: quase 10.000 aplicações, mais de 100 entrevistas, uns seis meses até assinar com uma empresa dos EUA. Meu inglês na entrevista final era B2 funcional, com sotaque forte e erro de gramática. Foi suficiente. O caminho inteiro da entrevista eu contei em entrevista em inglês para dev.
Se o EF SET te der B2, acrescente treino de entrevista e confira quais habilidades foram avaliadas. Se der B1, trabalhe as dificuldades identificadas sem descartar o que já sabe. Continue desenvolvendo o inglês geral nos dois casos.
Quando cheguei no B2, o que destravou as entrevistas foi treinar resposta, não estudar mais gramática. O VagaGringa nasceu disso: flashcards de entrevista com repetição espaçada, simulados e o NeetCode 150 em níveis. R$ 19,90 por mês, 7 dias de garantia.
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