Quase 10.000 currículos. Pouco mais de 100 entrevistas. Uma oferta assinada. Seis meses. Essa foi a minha conta, e eu teria pagado pra ver esses números antes de começar, porque passei os primeiros meses achando que o problema era eu.
A matemática do meu funil
- 50 e poucas aplicações por dia, quase todos os dias.
- Da pilha total, cerca de 1% virou resposta. Foi daí que saíram as 100 e tantas entrevistas.
- Das entrevistas, uma virou oferta.
Duas leituras possíveis. A pessimista: "então é quase impossível". A que me sustentou: cada etapa do funil é um número que dá pra melhorar. Minhas primeiras dezenas de entrevistas foram reprovações que me ensinaram a passar nas seguintes. A oferta não veio da entrevista número cinco; veio depois que eu já tinha errado de todos os jeitos possíveis e anotado cada um.
E uma ressalva que importa: o seu número não vai ser o meu. Conheço gente que resolveu com muito menos volume, gente com referral forte, gente com perfil mais raro. Eu não sou fora da curva. Sinceramente, me sinto abaixo dela. Volume e iteração foram o meu plano justamente porque não dependem de talento. Se 30 currículos sem resposta te fizeram concluir que você não serve, a amostra é pequena demais pra concluir qualquer coisa.
Volume sozinho não basta; perfeição também não
Os dois extremos falham:
- Perfeição sem volume: três dias polindo uma única aplicação é um bilhete de loteria muito caro.
- Volume sem iteração: repetir o mesmo erro 10.000 vezes, só que mais rápido.
O que funcionou foi volume com revisão. A cada lote de aplicações, um ajuste por vez: título do currículo, ordem das skills, canal. Resposta subiu, mantém; não subiu, reverte. E depois de cada entrevista, o caderno: a pergunta que me pegou, o que eu respondi, o que eu deveria ter respondido. Relia antes da entrevista seguinte. Sem esse ciclo, os 10.000 currículos teriam produzido as mesmas reprovações até o fim.
Como manter 50 por dia sem surtar
O risco real de seis meses de funil não é técnico, é emocional. O que me segurou:
- Bloco fixo: aplicações de manhã, duas horas, e acabou. O resto do dia era estudo e entrevista. Caçar vaga o dia inteiro é o caminho mais curto pro esgotamento. Fontes prontas ajudam a fechar o bloco rápido: onde encontrar vagas gringas.
- Template de currículo com ajuste de dois minutos por vaga, nunca reescrita. O formato está em currículo em inglês para dev.
- Planilha de tudo: empresa, data, canal, etapa. Em semana sem resposta, as linhas preenchidas eram a prova objetiva de que eu estava andando.
- Rejeição sem releitura. "Unfortunately" virou ruído de fundo: marcava na planilha e seguia. Não respondia, não relia, não remoía.
- Um dia por semana sem abrir planilha nenhuma. No meu caso, domingo.
O que pagava essa paciência toda: a faixa que se costuma ver pra pleno remoto do Brasil pra fora fica, em geral, entre US$ 3 mil e 7 mil por mês, com muita variação por empresa, senioridade e modelo de contrato. Escrevi com mais cuidado sobre isso em quanto ganha dev remoto no exterior.
O que eu faria diferente
Uma coisa só: treinar entrevista desde o primeiro dia, e não depois das primeiras vinte reprovações. Meu funil tinha duas conversões, e eu passei meses otimizando só a primeira. Currículo vira entrevista com volume e ajuste de CV. Entrevista vira oferta com treino deliberado. E essa segunda conversão era a que estava me matando. Referral também mexe na primeira conversão de um jeito que volume não alcança; comparei os dois em cold application vs indicação.
Volume me deu as entrevistas. Treino converteu uma. A conta fecha nessa ordem, não no talento.
O caderno de erros que me acompanhou nesses meses virou o VagaGringa: flashcards com repetição espaçada, simulados e NeetCode 150 em níveis, por R$ 19,90 uma única vez.
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