O primeiro currículo em inglês que eu mandei tinha foto, data de nascimento e estado civil. Duas páginas. Enviei ele pra centenas de vagas e a resposta foi silêncio absoluto. Hoje eu olho aquele arquivo e entendo o silêncio.
Currículo brasileiro e currículo americano são documentos diferentes. Não é só traduzir. O que segue é o que mudei, erro por erro, até as respostas começarem a aparecer.
Sem foto, sem idade, sem estado civil
No Brasil é normal. Nos EUA, não: empresas evitam informações que possam gerar acusação de viés na contratação: idade, aparência, estado civil. Currículo com foto soa amador pra recruiter gringo, e no pior caso é descartado por política interna. Não é regra escrita em pedra, mas foi o padrão em tudo que li e em todos os processos de que participei.
Corta: foto, idade, estado civil, endereço completo, CPF, "referências sob solicitação". Fica no topo: nome, título (Full Stack Developer), Brazil, e-mail, LinkedIn, GitHub. Só isso.
Uma página
Com um ou dois anos de experiência, uma página fecha com folga. Quem lê currículo lê rápido e lê muitos de uma vez; a maioria das pessoas que me entrevistaram claramente tinha passado o olho por cima minutos antes da call. Página dois não existe pra elas. Se algo importa de verdade, cabe na primeira.
Verbo de ação e número
Meu currículo antigo dizia "responsible for the development of features". Isso não diz nada. A versão que funcionou:
- Começar cada bullet com verbo de ação: Built, Shipped, Reduced, Migrated, Automated, Led.
- Colocar número onde existir: usuários atendidos, latência reduzida, tempo de deploy, cobertura de testes. "Built a payments flow in Node.js used by ~2k monthly users" diz mais que um parágrafo de adjetivos.
- Sem número bonito? Número honesto e pequeno ainda ganha de adjetivo. "Cut deploy time from 30 to 10 minutes" é modesto e concreto.
- Zero autoelogio: "hardworking", "passionate", "team player", cortei tudo. Ninguém acredita, e ocupa linha.
Passar pelo ATS
Muitas empresas usam ATS: o sistema que recebe, indexa e filtra currículo antes de um humano abrir. Minhas regras depois de apanhar bastante:
- PDF simples, uma coluna, fonte comum. Sem tabela, sem ícone, sem gráfico de "skill level". Meu segundo grande erro foi um template bonito do Canva que virava sopa de letrinhas no parser.
- Palavras-chave escritas do jeito que a vaga escreve. Se a vaga diz "TypeScript", escreve TypeScript, não "TS". Se diz "Node.js", não "NodeJS".
- Nome do arquivo: nome-sobrenome-resume.pdf.
Ajuste fino por vaga, não reescrita
Nas primeiras centenas de aplicações eu mandava o mesmo PDF pra tudo. Depois passei a gastar dois minutos por vaga: ajustar o título pro título do anúncio e reordenar as skills pra casar com a descrição. Dois minutos, não mais. Com 50 aplicações por dia, qualquer coisa acima disso mata o volume.
Os erros, em lista, pra você pular etapas
- Foto, idade e estado civil (o pior de todos).
- Duas páginas.
- Tradução literal do português: "acted in the development of...". Inglês de currículo é seco e direto.
- Listar toda tecnologia em que já encostei na vida. Sobrou o que eu uso de verdade: React, Node, TypeScript e o que cada vaga pedia.
- Inglês com erro básico. Revisei frase por frase e pedi revisão pra quem sabia mais que eu. Erro de gramática no currículo desmente o "advanced English" declarado duas linhas acima.
- Seção de educação inflada no topo. Ela vai pro fim, curta. Se você não tem faculdade, escrevi sobre isso em vaga gringa sem faculdade.
Uma ressalva honesta: currículo bom não gera oferta. Ele gera screening. A conversão que importa vem depois, nas etapas que descrevi em as etapas do processo gringo. E ele só trabalha se estiver circulando em volume. Os canais onde o meu circulava estão em onde encontrar vagas gringas.
Quando o currículo destrava as primeiras entrevistas, o gargalo vira responder bem, em inglês, sob pressão. Esse é o treino que eu sistematizei no VagaGringa.
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