"Do you have any questions for us?" Nas minhas primeiras vinte e tantas entrevistas, eu respondia alguma variação de "no, I think we covered everything". Achava que era educado. Era desperdício duplo: o entrevistador lia desinteresse, e eu jogava fora meus únicos minutos de entrevistar a empresa. Os últimos cinco minutos são avaliação nos dois sentidos. E, depois de 100+ entrevistas, foram as respostas deles, tanto quanto as minhas, que me pouparam de aceitar vaga furada.
Passei a levar três perguntas anotadas, porque na hora a cabeça esvazia. Estas eram as titulares do caderno, com o que cada resposta revela.
"What does on-call look like for this team?"
A pergunta com melhor custo-benefício que eu fiz. Leituras possíveis:
- Resposta detalhada (rotação, frequência, compensação, o que acontece depois de um incidente) indica processo maduro.
- Risada nervosa, troca de olhares, ou um "we're all kind of always on": esse é o seu fim de semana pelos próximos anos se apresentando.
- "We don't have on-call" numa empresa com produto rodando também merece a emenda: "who handles incidents, then?"
Pra quem trabalha do Brasil, a continuação natural é "how does the team handle time zones?". A resposta diz se as calls vão cair às 22h. O fuso com os EUA costuma favorecer o brasileiro, mas só se o time for de fato assíncrono.
"How do you measure success for this team?"
Se o hiring manager responde com clareza (métricas, metas, como o trabalho individual aparece), você sabe o que precisa fazer pra crescer ali. Se a resposta é vaga ("we just want impact"), promoção vai ser loteria e política. Não é motivo automático pra recusar; é informação pra precificar. Eu anotava a resposta literal e comparava entre empresas. A diferença era gritante.
"Why is this position open?"
Três respostas, três leituras:
- Crescimento ("the team is expanding"): bom sinal. Vale conferir se o crescimento tem motivo concreto.
- Substituição ("someone left"): pergunte, com leveza, quanto tempo a pessoa ficou. Saída depois de anos é vida. Terceiro dev saindo da mesma cadeira em um ano é dado.
- Evasiva: mudança de assunto, resposta genérica. Anote. Evasiva aqui costuma vir acompanhada das outras red flags mais pra frente.
"What's the biggest challenge for the team right now?"
Time maduro responde com franqueza: dívida técnica, contratação difícil, um legado que assombra. Resposta em tom de panfleto ("no challenges, everything is great!") significa que ou não confiam em você pra dizer a verdade, ou não sabem. As duas coisas você quer saber antes de assinar.
Perguntas que queimam o candidato
Algumas aprendi na pele:
- Salário e férias na primeira entrevista técnica. Existe hora certa (em geral com o recruiter, ou quando a oferta se desenha) e negociar salário é um jogo à parte. Na primeira call técnica, soa como se o resto não importasse.
- "What does the company do?" Um entrevistador me contou que isso encerra a avaliação dele na hora. Cinco minutos de pesquisa evitam isso.
- Pergunta genérica decorada. "What's the culture like?" rende sempre a mesma resposta ("collaborative!") e não revela nada. Pergunta boa é específica e não tem resposta pronta.
- Nenhuma pergunta. Meu erro original. Lê-se assim: não se imaginou trabalhando aqui.
Como eu montava as minhas
Regra do caderno: três perguntas escritas antes da call, uma delas específica daquela empresa: algo do produto, do blog de engenharia, do texto da vaga. Em inglês simples, ensaiadas o bastante pra saírem fluidas; se é aí que o seu inglês trava, treine essas frases junto com o vocabulário de entrevista. E anotar a resposta depois. No fim de um processo, com três ou quatro entrevistas na mesma empresa, as respostas acumuladas viravam um raio-x que página de careers nenhuma entrega.
As perguntas do meu caderno, e o que cada tipo de resposta revela, estão em flashcards no VagaGringa, junto com simulados de entrevista. R$ 19,90 uma vez, 7 dias de garantia.
Conhecer o VagaGringa · R$ 19,90 vitalícioEntrevista é via de mão dupla, só que a sua mão são esses minutos finais. Use. A empresa passou uma hora te medindo; cinco minutos medindo a empresa é o mínimo de simetria. E quando a resposta pra "why is this position open" for uma risada desconfortável, agradeça duas vezes: pela entrevista e pelo aviso.